Da jornada narrativa ao hiato (e uma luz, nos bancos acadêmicos)
O que iniciou como histórias curtas, de umas doze páginas, sem formatação adequada, foi evoluindo para narrativas mais caudalosas ao longo da minha passagem pelo segundo ano do colegial. Lembro que achava que se tratava de contos, apesar de arrastados, até entender direito o que diferenciava uma estrutura de conto de uma de romance.
Ao todo, terminei com vinte e quatro histórias acabadas. Mil e vinte e sete páginas em arquivo de Word. De capa e espada a narrativas que passam pelo “Velho Oeste”, Guerra do Vietnã, conflitos de gangues de motociclistas, uma batalha épica em Nova Iorque e, por fim, um thriller policial de terror que se desenrola em Porto Alegre.
Do colégio ao início da faculdade de Direito na PUC-RS, houve um pequeno hiato na escrita. Eu perdera contato com o meu primeiro público leitor (a turminha do RPG, lá de trás). As histórias antigas, então, foram engavetadas.
Nesse meio-tempo, as leituras jurídicas dividiam o meu interesse, lado a lado, com as ficções. Lembro que li “O Processo”, de Kafka, não porque a faculdade de Direito o tenha exigido. Achei uma edição amarelada entre os antigos livros da minha avó, agora falecida, e fiz dela um exemplar da minha pequena coleção. A história de Josef K. me prendeu. Angustiou-me. Fez-me questionar a razão de toda a resiliência do personagem perante o seu destino final. Recordo, também, da burocracia sufocante que emergia dos recônditos do Tribunal.
Nessa mesma época, lembro de Orwell, seu “1984” e sua “A Revolução dos Bichos”; Hunter S. Thompson e o tresloucado “Medo e Delírio em Las Vegas” e, claro, de Jack Kerouac e “On the Road”. Do Thompson, eu devoraria todos os livros publicados em português dali para a frente, querendo saber mais sobre o tal “estilo Gonzo” de escrever. Do Kerouac, “Big Sur” e “Os Subterrâneos” apareceriam como obras lidas mais à frente na minha vida.
A literatura sul-americana também marcara presença. Estavam lá: “De Pernas pro Ar – A Escola do Mundo ao Avesso”, de Galeano, e “Crônica de uma Morte Anunciada”, de Gabo. E finalmente li (e marejei com) “Capitães da Areia”, redimindo-me com o Jorge.
Copiei alguns trechos dos livros citados para usar como aforismos em futuros artigos científicos. Um costume que preservei e levei para as publicações técnicas que tive a feliz oportunidade de realizar. Assim, você abre um livro meu sobre “Regime disciplinar aplicado aos servidores” e encontra lá, antes de começar a falar sobre as penas: “Sempre chega a hora em que descobrimos que sabíamos muito mais do que antes julgávamos”, José Saramago, em “Ensaio sobre a Lucidez” (que eu considero tão bom quanto “Ensaio sobre a Cegueira”).
Em 2005, ainda era estudante de Direito quando assisti, de olhos arregalados, a Saramago e também a Galeano no Fórum Social Mundial, em evento no Araújo Vianna. Uma lembrança grudada para sempre na minha memória e sempre revisitada, assim como os livros de ambos. Ainda hoje, ler “A Caverna” ou “Fechado por Motivo de Futebol” é como revisitar velhos amigos.
Mas voltemos ao meu hiato como escritor. Ele perdurou ao longo da faculdade. Apesar de fazer uma nova turma — ou seja, um novo “público de leitores” — agora na faculdade, só comecei a escrever para eles depois da formatura. Desta vez, um processo um tanto diferente. Escrevia trechos de uma história e mandava para eles via e-mail, com cópia para todos. Era uma comédia cujo título coloquei como “Costello em Terra Verde e o Triste Fim do Futebol”. Costello era o personagem principal, um empresário de futebol iniciante que, junto com o parceiro vigarista, embarcava em uma road trip para tentar encontrar um jogador aposentado, representante de um futebol vitorioso, mas não muito endinheirado, lá do final da década de 90 e início dos anos 2000. Terra Verde era a cidade fictícia onde o ex-jogador vivia.
Conforme ia lançando os trechos da história, recebia os feedbacks. O retorno era bom. Um dos colegas me disse que eu o deixava ansioso para saber o que aconteceria com o personagem “X” depois do que havia ocorrido no evento “Y”.
Anos mais tarde, organizei essa história utilizando os recursos que eu tinha e, munido de muita coragem, enviei para um contato em uma editora emergente que publicava literatura pulp. Não obtive qualquer resposta e essa foi, tecnicamente, a minha primeira rejeição.

