De um exemplar emprestado à Feira do Livro: Como comecei a escrever
A segunda metade dos anos 2000 já avançava quando, por influência da minha mãe — mais uma daquelas mulheres muito além do seu tempo —, dei um passo maior. Retornei à PUC como alumnus e me inscrevi em uma disciplina isolada, não integrante do currículo pleno da Faculdade de Letras. Chamava-se “Escrita Criativa”. A disciplina era ministrada pelo escritor e professor Charles Kiefer, com algumas aulas também ministradas, em substituição, pelo professor e escritor Luiz Antônio Assis Brasil.
Era uma turma de graduação em Letras. Não me recordo de qual semestre cursavam, porém, apesar de as aulas ocorrerem no turno da noite — o que geralmente atraía alunos com maior maturidade, que trabalhavam durante o dia —, havia muitos rostos jovens. Jovens daqueles que se percebia terem saído do colégio havia pouco tempo e que traziam consigo certo “dar de ombros”.
O conteúdo programático abrangia elementos como “criatividade artística”, “criação literária” e “gêneros literários”, com a realização de seminários sobre os textos escritos pelos alunos.
Um psicólogo e eu éramos os outlanders naquela turma de Letras. Não que isso me afetasse, pois, já no primeiro dia, fiquei curioso com um dos livros-base indicados e utilizados pelo professor Kiefer: “A Jornada do Escritor”, de Christopher Vogler.
Meu irmão, estudante da famosa FAMECOS da PUC, já havia me falado sobre a obra. Aliás, foi com ele que peguei o exemplar que passei a consultar. Dali tirei as primeiras lições sobre arquétipos e construção de personagens. Algo sólido; conceitos em que eu podia me apoiar e utilizar para testar as minhas criações.
Depois de Vogler, partimos para exercícios de escrita: contos, minicontos e, ao final, sessenta páginas de um romance. Esses exercícios foram transformados em um portfólio a ser entregue ao final da disciplina, sendo o manuscrito inicial do romance uma das figuras centrais. Naquela época eu não fazia ideia, mas eu publicaria, a partir daqueles exercícios realizados com o professor Charles Kiefer, um conto, um miniconto e o romance. Guardo esse portfólio até hoje.
Ao final do semestre, lembro que o professor Kiefer aplicou uma prova dissertativa sobre os institutos estudados. Fui muito bem e lembro que, junto ao colega psicólogo, consegui arrancar um elogio final no dia da entrega das notas.
Prossegui trocando e-mails com o professor Kiefer, pois uma conhecida me falara sobre sua oficina de escrita criativa. Apesar de não ter sido seu aluno na oficina propriamente dita, recebi um convite do professor para enviar um conto para análise e possível publicação em uma antologia. A obra era formada por textos de alunos e ex-alunos da oficina. Foi minha primeira publicação de ficção em livro e a única com meu nome de batismo. Todas as demais eu faria sob o pseudônimo “Dan Cristoff”. O conto em questão intitulava-se “O Paradoxo de Gerson” e saiu no livro 104 que contam.
O livro teve um lançamento oficial na Feira do Livro daquele ano. Fomos todos convidados para a sessão de autógrafos. Eu tinha vinte e quatro anos e finalmente conseguira publicar.
E a história? No conto “O Paradoxo de Gerson”, o protagonista retorna para casa depois de uma noite de bebedeira após o trabalho exaustivo. Existem dois inícios “falsos” nos quais a esposa de Gerson o espera. No primeiro, assim que ele entra em casa, ocorre uma briga com um porta-retratos voando próximo à cabeça do protagonista. No segundo, o clima é mais suave e ela o aguarda para fazer amor. No terceiro início — o verdadeiro, que sinaliza que os outros dois estavam apenas na cabeça ébria de Gerson —, a esposa vai embora para a casa da mãe, levando os filhos. A partir do abandono familiar e da decadência alcoólica, o personagem mergulha em uma espiral pela noite da cidade. Os personagens, então, surgem dentro de uma alegoria que explora o realismo fantástico, com um final melancólico.
Apesar do estímulo, demoraria mais quatro anos para que eu voltasse a escrever.

