Doutor Sinistro: Os bastidores da criação de uma antologia de horror
Em fevereiro de 2020, li "de capa a capa" o livro Escrever Ficção: Um manual de criação literária, do professor Luiz Antônio de Assis Brasil. Ainda sob o efeito das suas400 páginas, anotei tópicos fundamentais em meu caderno: a importância de uma boa "questão essencial" para o personagem, as diferentes espécies de focalização, a gestão do tempo e espaço e a necessidade de um final coerente com o enredo.
Essas diretrizes tornaram-se lições primordiais que eu não poderia esquecer e, mais importante, que precisava exercitar. Munido desses ensinamentos técnicos, comecei a conceber minha primeira antologia de contos. Quanto ao gênero, não tive dúvidas: seria o terror.
Minhas Referências: Do Mestre King ao Clássico Lovecraft
É comum dizer que Stephen King é uma referência obrigatória — e, de fato, obras como A Zona Morta e o personagem John Smith ocupam um lugar especial nas minhas leituras.
No entanto, minha antologia bebe de uma fonte ainda mais clássica do horror fantástico: H. P. Lovecraft.
Lovecraft aparece, inclusive em forma de aforismo, em um dos últimos contos do livro: "Albardão". O título refere-se a um farol ativo, um dos mais isolados do Brasil, localizado em Santa Vitória do Palmar, RS. Após ler uma reportagem sobre o local, criei o protagonista, o soldado Gabriel Herrera.
No conto, Herrera tem a missão de substituir o antigo faroleiro que supostamente cometeu suicídio. Ele é acompanhado pela Capitã Joana Wolfe, uma personagem que já havia dado as caras em outra história da obra.
A Experiência com a Focalização Interna
A Capitã Wolfe aparece primeiro em "Flores". Para este conto, decidi desafiar as convenções e utilizei a focalização interna em segunda pessoa. Mesmo com o alerta do professor Assis Brasil de que essa técnica deve ser realizada "muito excepcionalmente", resolvi arriscar para colocar o leitor diretamente dentro da cabeça da personagem.
Em "Flores", Wolfe lidera um pelotão do exército na selva amazônica. Ela precisa lidar com um soldado psicologicamente instável devido a traumas de guerra. Algo dá terrivelmente errado nessa missão, o que explica por que, em "Albardão", encontramos uma capitã cansada e cautelosa, prestes a dar baixa no serviço militar.
Ressuscitando Contos: Lobisomens e Crítica Social
Para abrir a antologia, resgatei dois contos "engavetados":
"A Noite das Bestas":
Escrito originalmente aos meus quinze anos para amigos viciados em RPG. Ambientado na década de 70, narra o cerco a uma cidade de origem alemã por uma alcateia liderada pelo lobo Rot ("O Vermelho"). O conto mistura mitologia com temas pesados como preconceito racial e xenofobia, através do personagem Cleon."A Menina que Gritou Lobo":
Fruto da cadeira de Escrita Criativa com o professor Charles Kiefer. É um conto visceral sobre linchamento e injustiça, onde um professor humilde é acusado injustamente por uma multidão ensandecida.
Curiosamente, existem duas versões de "A Menina que Gritou Lobo". Na antologia, ela possui um prefácio que flerta com o sobrenatural para enganar as expectativas do leitor. Já a segunda versão foi publicada de forma isolada no e-book Insólito! Assombroso! Inimaginável!, disponível na Amazon.
O Elo de Ligação: Doutor Sinistro
Intitulei a antologia como "Doutor Sinistro" e a fechei com três histórias distintas:
"Joyriders": Uma crítica à juventude atual, focada em apostas esportivas e rachas de carros.
"O Dia em que o Porco Perdeu suas Asas": Uma história de vingança contra um CEO que praticava assédio sexual contra as suas colaboradoras.
"Doutor Sinistro":
O conto homônimo apresenta um estranho de terno que perambula por uma cidade crua em seu Landau antigo, funcionando como o elo que une os contos anteriores.
Escrever essa antologia foi mais do que um exercício literário; foi a aplicação prática de uma paixão que começou nos manuais e terminou no horror mais profundo da alma humana.
Ao terminar esse livro, estava em chamas.

