O começo
Escrevo narrativas de ficção desde antes dos meus quatorze anos. A idade, no entanto, ganhou importância por marcar a primeira vez em que escrevi algo destinado a ser lido — e criticado — por um adulto. Foi uma tarefa escolar, proposta por uma professora de português muito à frente do seu tempo.
Estávamos na oitava série. A atividade era simples e, por isso mesmo, poderosa: escolher um tema e escrever uma história. Não havia restrições. O tema era livre.
Era a década de 1990. Nas bancas de revistas, um menino ainda podia comprar uma história em quadrinhos com uma moeda dada pelo avô. Para mim, aquela foi a verdadeira Era de Ouro das HQs. Havia Sal Buscema na melhor saga do Homem-Aranha, O Devorador de Pecados. Wolverine em Madripoor, criada por Chris Claremont. Jim Lee redefinindo os X-Men. Frank Miller e O Cavaleiro das Trevas.
No cinema, os últimos ecos dos filmes de ação dos anos 1980 disputavam espaço com um Tarantino ainda embrionário e um Al Pacino em fase memorável, em Perfume de Mulher, Carlito’s Way e Fogo contra Fogo. E havia Se7en: Os Sete Crimes Capitais. Havia David Fincher.
Foi de Se7en que puxei as ideias para a história que escreveria para a professora. Criei um assassino misterioso que matava suas vítimas e deixava uma máscara teatral junto ao cadáver. Dois policiais o perseguiam por uma cidade caótica. O título era As Sete Faces de um Homem.
A história pingava sangue. Tinha tiros, facadas, violência. Isso não me preocupava em casa. Cresci em um lar onde assistíamos a esses filmes e líamos livros e quadrinhos na mesma intensidade com que ouvíamos The Wall e Nevermind.
Meu medo era outro. O que a professora de português pensaria? Poderia achar exagerado, inadequado? Poderia chamar a direção ou, pior, me expor diante da turma?
Nada disso aconteceu. Após ler todos os trabalhos, ela foi chamando os alunos e anunciando as notas. Tirei dez. Voltei para a carteira ainda sem acreditar. Então, em voz alta, ela comentou que o meu trabalho e o de uma colega eram os melhores da turma. Guardei aquele momento. Guardei também o trabalho impresso — ainda o tenho em casa.
A verdade é que eu já era leitor. Só fui entender isso plenamente muitos anos depois, ao ler Sobre a Escrita, de Stephen King, e encontrar a frase que resume tudo: “Se você quer ser escritor, existem duas coisas a fazer: ler muito e escrever muito”.
Minha avó foi uma das grandes responsáveis por isso. Formada em Direito e Contabilidade, falava francês fluentemente. Outra mulher à frente do seu tempo. Lembro-me dela me levando pela mão à recém-inaugurada Livraria Saraiva, no Shopping Praia de Belas, em Porto Alegre. Eu ainda não tinha quatorze anos. Ela disse apenas: “Pode escolher os livros que quiser”.
Escolhi O Senhor dos Anéis. Escolhi O Hobbit. E escolhi mais um “tijolo”, desta vez na prateleira do terror: um livro de capa preta, com um palhaço maquiavélico na frente. It: A Coisa.
Aos quinze anos, voltei a escrever com mais gana. Já estava no primeiro ano do segundo grau e fazia parte de um grupo que começava a jogar RPG. Não era dos mais habilidosos no jogo, mas era fascinado pelas histórias, pelos personagens, pelos mundos e mitologias.
Comecei, então, a escrever fanzines ambientados no universo do RPG que mais me capturou: Vampiro: A Máscara. Escrevia no Word — o computador doméstico, a internet discada e os e-mails já eram realidade. Terminava um texto e, quase sem revisar, enviava para os amigos da mesa de jogo.
Eles foram meu primeiro público leitor.
Tudo começou ali: uma história livre, uma professora atenta e o acaso de alguém dizer que aquilo valia a pena.
Valia?

